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segunda-feira, 13 de março de 2017

Donnie Darko e a juventude


Prolegôminos

            Reassistindo o filme Donnie Darko (2001), dirigido por Richard Kelly, me deparei com tópicos que podem causar um tremendo mal-estar e parecer bem mórbidos de início. Começarei apresentando os personagens que considero importantes para a discussão (adiantando algumas relações entre Donnie e situações vividas no filme), em seguida discorrerei sobre algumas cenas do filme. Em ambos os casos dialogarei com Foucault e Deleuze sobre poder, identidade e diferença.
            Donald (apelidado de Donnie) Darko é um garoto estranho que se esconde entre seus ombros, anda curvado; possui um olhar medroso; e expressa comentários extremamente inconvenientes. Isto, entretanto, é a imagem que criam dele. Para o protagonista sua postura é a de um escudo contra as ameaças que representam as pessoas, seu olhar pode ser medroso, mas também é observador; e seus comentários são formas de resistência contra um mundo débil e tolo, e poderíamos acrescentar, opressor por tentar torná-lo débil e tolo. Utilizando as palavras da terapeuta dele: “O comportamento agressivo de Donnie, seu distanciamento da realidade, parece ser devido à incapacidade dele de lidar com as forças no mundo que ele considera ameaçadoras”. Ela afirma de Donnie é um esquizoparanoide.
            Como pedagogo, me chama atenção a relação entre Donnie e a escola. De um lado estão as relações entre professores, sendo: A) a professora moralista Kitty e sua idolatria pela autoajuda de Jim Cunningham (personagem acusado de pedófilo nas cenas finais do filme); e B) professor Monnitoff e professora Pomeroy, responsáveis pelas disciplinas de Física e Literatura, serão provocadores e ouvintes de Donnie.
A relação A pode ser abstraída para todas as relações em que os jovens são incapazes de pensar por si mesmos, tratados como crianças, devem ser obedientes e carregam marcas de derrotas deixadas por lutas que nunca escolheram lutar, lutas estas escolhidas por familiares e representantes da escola, um fardo tão grande quanto ser obrigado a servir seu país numa guerra: não há escolha, apenas imposição, e o ponto em comum é que sempre há algo de bom nisso, com certeza não para o estudante-soldado tratado como objeto no campo de batalha da escola.
Na relação B, ainda que hierarquizada (devido ao sistema de fileiras da sala de aula e a autoridade excessiva possuída pelos professores no filme), há um deslocamento do estudante-objeto para o estudante-sujeito, deixam de existir corpos em branco e sem mente (ou que não possuem nada de útil) para surgir (ao menos para a professora Pomeroy) corpos pensantes, ideias rechaçadas pelo autoritarismo, protagonistas de alguma coisa em algum lugar que só os estudantes são capazes de dizer. Como quando ela diz ao diretor, ao ser demitida: tanto ela quanto a direção não compreendem os jovens e estão perdendo todos.  Outras vezes, com o professor Monnitoff, Donnie não é tratado como louco, idiota ou sabe tudo; é alguém curioso, possui dúvidas e uma motivação profunda sobre coisas que ninguém está interessado em saber.
Do outro lado, além da relação com professores, são relações entre colegas que marcam outro aspecto das relações escolares. A disparidade entre Donnie e os colegas surge de sua resistência em ser açambarcado por um mundo mortal, representado por quase todas as pessoas, inclusive colegas da escola. Donnie pode ser considerado uma representação da diferença, ou ainda, da loucura, a sombra da racionalidade e dos ideais modernos de sociedade. Donnie é antipático em suas relações, considero isso um tipo de proteção a sua identidade.
Donnie incorpora o caos como uma brincadeira. Seu caráter caótico mostra-se pela tentativa de afastar as pessoas, de desconcertá-las ou provocar um choque desagradável nelas. E não é diferente nas relações familiares, e talvez, por isso, seja obrigado a participar de sessões de terapia.
Donnie tem amigos. Parece algo superficial e sem importância para ele.
Já Frank é um personagem misterioso, uma fantasia de Donnie trazida do futuro para alertá-lo sobre o fim do mundo. Por ser um coelho, retrata simbolicamente o inesperado, a surpresa de sair da rotina, e seguir o coelho (como faz a Alice do País das Maravilhas) é tomar um rumo não planejado. Aqui, poderá ser confundido com destino ou algo parecido.
Gretchen é cúmplice de Donnie, como ela mesma diz, acha ele estranho, mas é o diz num elogio. Ficar próxima de Donnie faz com que ela compreenda o incompreendido, o que faz bem para ele.
Por fim, a Dona Morte, ou, Roberta Sparrow, escritora do livro que tanto cativa Donnie - A Filosofia da Viagem no Tempo - e a personagem com uma das frases das mais impactantes do filme: cada criatura viva na Terra morre sozinha.

Roberta Sparrow sussurrando sua  frase de solidão no ouvido de Donnie

 
Duplo sentido


            Na primeira aula de Pomeroy, Donnie lança sua interpretação sobre um trecho de The Destructors, de Graham Greene, no qual alguns garotos invadem uma casa e não roubam o dinheiro que encontram no colchão, apenas queimam-no. Nisto o garoto-que-se-esconde-entre-os-ombros fala “Eles [os garotos] dizem logo depois de inundar a casa e deixá-la em pedaços que a destruição é uma forma de criação. Então, o fato de queimarem o dinheiro é irônico. Eles só querem saber o que acontecem quando sacodem o mundo”. Razão que nos faz refletir sobre seu comportamento caótico e destrutivo, de não temer o que desorganiza e desestabiliza porque as coisas não acabam vazias num vácuo, formam-se coisas novas dos destroços. E Donnie completa dizendo “Eles querem mudar as coisas”, trecho que ajuda a compreender o próprio personagem, fazendo-nos pensar não apenas em resistência para manter-se, como para transformar.
            Outro diálogo que expressa essa mesma ideia sobre criação na destruição é quando Donnie acompanha Gretchen para casa e no percurso diz “Bem, estou feliz que a escola tenha inundado hoje”. Gretchen pergunta “Por que?”. Ele responde “Porque nós nunca teríamos essa conversa”.
            As coisas deixam de ser o que são. A ordem sucumbe, existindo outro sistema de organização. Subverte-se, assim, a linha entre amor e medo, expressa por Kitty. Quando Donnie se irrita com ela e diz que é mais complexo é porque a professora põe o amor como força criativa e o medo como força destrutiva, quando, na verdade, Donnie teme o mundo, resiste contra seus impulsos violentos de subsumi-lo e encontra poder para manter sua identidade no medo de perdê-la. O amor, por sua vez, quando quadriculado numa ideia de normalidade (como amar), torna-se destrutivo para uma identidade que ultrapassou essa norma de amor; o medo de Donnie torna-se o amor a si próprio, enquanto seguir o caminho da amorosidade é autodestruição, pois amar é doar-se de forma que os outros mudem o que ele tanto aprecia em si mesmo.
            Nesse duplo sentido que existe entre o medo e o amor, como poderia Donnie marcar um X na Linha Vital para indicar se uma situação é mais negativa ou positiva por estar associada ao medo ou ao amor, respectivamente, se ambos se confundem? “Não se pode dividir as coisas em duas categorias e negar o resto”, contesta Donnie.
            Parece que tudo acontece num grande ensaio deleuziano.


Professora Kitty e a Linha Vital do medo e do amor



Educação para o mundo real

            Repetindo os passos de Durkheim, os mais velhos educam os mais novos a obedecer as regras, preparam-nos para os desafios do mundo real, aquilo que existe em potência não é considerado real, somente imaginação. Como essa educação só acontece por uma hierarquia de saberes, os mais velhos sabem mais que os novos e estão capacitados a instrui-los simplesmente por que sabem algo que eles não sabem: pagar contas, criar filhos, trabalhar e outras tarefas do mundo adulto. Isto abre margem, por meios falaciosos, de afirmar a superioridade dos adultos sobre os jovens em todos os aspectos da vida.
            Os jovens são encarados como um perigo para si mesmos, entregam-se ao medo facilmente e fazem bobagens como fumar um cigarro, transar antes do matrimônio, afastar-se de Deus ou engordar. Existem dispositivos de poder preciosos para tornar os corpos dos adolescentes desconfortáveis, estranhos para si mesmos. Desde a terapeuta de Donnie atestando sua normalidade psíquica até Jim Cunningham apelando para sua patética sabedoria de dizer quando as pessoas sentem medo. Os adultos parecem enxergar a alma dos jovens e estão certos em suas colocações, constrangendo-os e deixando-os desconfortáveis.
            Aceitar todos esses discursos destrutivos ao ego seria ir de encontro à morte. Os jovens, que aprenderam a respeitar os mais velhos, seguem seus conselhos. Se eles apontam o medo, os jovens entendem como isto é prejudicial (compreensão pelos recursos que a ideologia dos adultos oferece), logo, seguem todos os rituais que garantem (dizem que garantem) maior felicidade.
            Donnie é capaz de diferenciar os adultos que agem por má-fé (como Cunningham) ou apenas ignorantes (como Kitty) dos facilitadores (professores Monnitoff e Pomeroy). Isto não faz dele um garoto iluminado, as sessões de terapia tem efeitos na autoimagem de Donnie, fragmentando-a, pelo rótulo de anormal, afinal, se fosse como os outros não precisaria ir para as sessões, percebidos na cena em que pergunta a sua mãe como ela se sente por ter um filho louco. É evidente que isto incomoda Donnie. Não se identifica com os outros, é a mais pura diferença entendida como loucura e medo.
            Possuir identidade é ser capaz de dizer “eu sou”. Se a identidade de Donnie é a loucura e o medo, sua diferença é absorvida por estes regimes de verdade (o poder-saber que emana dos discursos dos mais velhos); passa a ser representada por uma identidade avassaladora da diferença por pautar-se na igualdade dos termos.
            Tudo o que foge à regra/norma é visto como heresia no mundo da ordem conservadora, afronta a ordem natural das coisas, sejam novas ideias, novas palavras, novos costumes, novos hábitos etc.; porque as coisas sempre foram assim, e sempre serão, condenando os jovens a um mundo estagnado nos erros de seus mentores e tutores.
            Os mais velhos falam dos deveres e obrigações dos mais jovens como se falassem de uma lei física: imutável. São prepotentes e duros em suas colocações, mesmo quando não é imposto, como o pai de Donnie, no início do filme, ao criticar a escolha de voto da irmã: “Bem, talvez quando você tiver seu próprio filho que precise usar aparelho e não possa pagar porque metade do salário do seu marido vai para o Governo, você se arrependa”. O que não deixa de ser uma desqualificação do discurso.
            Donnie não se submete, cria controle onde não existia para desestabilizar os normatizadores e subverte a Verdade. Os pontos sobre os quais discorro nesta parte são muito parecidos com Considerações sobre Trainspotting, drogas, liberdade e absurdo (artigo deste blog, aqui). Foucault é um excelente nome para trabalhar temas como resistência, indisciplina, poder e verdade.

Vale a pena existir?

            Nosso mundo privilegia os acertos. Somos condenados quando erramos. Sentimos vergonha de nossos próprios erros. Sentimo-nos menores por errar, somos feridos por eles. Os versos da música Quebrando os Dentes, da banda brasileira Pato Fu, é ilustrativo nesse ponto: “As brigas que ganhei/ Nem um troféu/ Como lembrança/ Pra casa eu levei/ As brigas que perdi/ Estas sim/ Eu nunca esqueci/ Eu nunca esqueci”.
            Os acertos estão reservados aos mais velhos. Os erros, por sua vez, devem ser esquecidos, como se o erro não criasse ou construísse, fosse pura destruição. São corrigidas as posturas, a fala, ações, amizades, pensamentos e amores. O erro deixa de ser aquilo que acompanha a verdade sobre as coisas para ser o motivo que nos distancia de um mundo belo e ideal. A história que não pode ser prevista é substituída por uma razão teleológica; existem coisas “certas” e “erradas”: quanto mais errado estamos, nessa lógica, mais próximos da infelicidade, apenas o acerto nos conduz para um mundo próspero.
            Numa perspectiva marxista básica, agir sobre o mundo é transformá-lo, e transformar o mundo é criar novas ferramentas que nos possibilitam novas formas de agir, por isso, novas formas de pensar nossas ações sobre o mundo; ao mudar o pensamento nos transformamos, assim, narramos etapas de uma história. Como as ações e as interações que elas proporcionam são diversas, os pensamentos podem ser diversos. Se existe uma forma “certa” de agir sobre o mundo, não sabemos como é, mas mesmo se encontrá-la, perceberíamos (nós enquanto humanidade) em unanimidade que aquele é o modo certo de agir? Pensamentos teleológicos tendem a ser rejeitados pelas ciências por incentivarem a ideia de destino, de que as coisas estão prontas e não serão mudadas, basta seguir as pistas misteriosas deixadas em algum canto do universo para alcançar o acerto.
            Os adultos gostam de dizer como o mundo é, utilizando-se de uma razão ideológica que descarta um mundo que está sendo, e por isso é histórico. Ao menos para Donnie, é histórico. Por uma perspectiva trans-histórica, há que temer os erros. Todavia, se o erro é intrínseco à vida, rejeitá-lo não seria uma forma de alienação? No mínimo, um medo desnecessário?
            O erro assombra pessoas convencidas de seu valor negativo. Reaparece como uma tragédia, uma espécie de pecado que poderíamos ter evitado. São interpretados, atualmente, como afetos, seu efeito é emocional, capaz de levar um sujeito a meditar sobre suas escolhas, suas realizações, suas possibilidades, projetos, sonhos, o que fez, o que deixou de fazer, o que ainda poderá fazer com o quem fez e o que é impossível de ser realizado devido as ações passadas.      

Gretchen e Donnie

“E se você pudesse voltar no tempo e trocar todas aquelas horas de dor e escuridão por algo melhor?”, pergunta Gretchen à Donnie. Como se dor e escuridão fossem situações invasores da Vida, reduzida ao prazer e satisfação dos desejos: o reino da pulsão de vida eterna. O erro também é Eros, desde que saibamos que toda a Vida comporta desprazeres e abdicação de nossa própria satisfação.
Somos o que somos porque vivemos a vida que vivemos do jeito que ela se apresentou. A fantasia de Gretchen em apagar os erros é querer apagar algo em si que o Outro desgosta. O erro marca uma escolha e nem sempre poderia ser evitado, só o seria se fossemos diferentes de quem éramos quando erramos, o que implica dizer que deveríamos, em alguns momentos de nossas vidas, sermos outras pessoas que não nós mesmos para não ter errado. Consequentemente, significa ter ciência de algo que pouparia o erro, porém, tal ciência poderia ser adquirida no momento de reflexão após o erro, e isto é formação e crescimento, o curso da vida.
O acerto está para a identidade como o erro está para a diferença. Errar não marca destino, é história. O acerto está próximo do poder, daí é tradição, moral, costumes e a norma culta da língua. O poder pode escolher seu acervo de narrativas históricas a serem reproduzidas, ao fazê-lo, exclui outras narrativas. Muito possivelmente, estas tornar-se-ão o erro porque não repetem a história pretendida, a história enquanto Mesmo.
A diferença repetindo-se sempre igual deixa de ser diferença para ser o Mesmo. A diferença se repete no tempo com conteúdo indefinido, ainda que obedeça a uma forma. Ao me utilizar do conceito deleuziano de diferença, pretendo mostrar como ela é uma parte num todo que escapa às regras e normas capaz de igualá-la a outros termos para ser um termo de excelência num arranjo de regras gerais.
Por vezes a identidade fere a diferença como o acerto fere o erro. A diferença não precisa subsumir-se à identidade existente. Toda diferença nasce de uma identidade, mas não carrega essa identidade por toda a vida se for capaz de separar-se dela para constituir outra identidade: separar a parte de um todo para multiplicar-se em várias partes e formar outro todo. Por sua vez, o erro não deve limitar-se aos acertos, seria erradicar sua equivocidade à univocidade. O erro origina um acerto enquanto acontecimento, espontaneidade, criação; o erro origina identidade. O duplo sentido retorna na relação entre erro e acerto dinamizando a diferença na identidade.
O mundo adulto e a resistência de Donnie é uma perfeita pretensão de instalar a dialética hegeliana de negação ao sujeito jovem para ser sintetizado num corpo que vive intensamente uma pulsão de morte vestida com elegantes remendos de autorrealização. Todo jovem, assim como Donnie, é convencido por discursos e outros recursos de uma sociedade mais velha sobre o quão inevitável é a transcendência que seu Eu encontrará na doação de seu corpo e mente para o Outro-solapador-das-liberdades.
Vale a pena existir num momento em que os sujeitos e suas diferenças são indesejáveis? A diferença confunde-se com a identidade; os comportamentos e ações são minuciosamente arranjados para servirem uma ordem mecânica de como as coisas deveriam ser, enquanto a liberdade com a qual a diferença se repete multiplica as possibilidades de como as coisas podem ser.
A juventude, representada em Donnie Darko, reclama, mais uma vez, versos da banda Pato Fu: “Eu quis ser eu mesmo/ Eu quis ser alguém/Mas não como os outros/ Que não são ninguém”. Há uma proposta de distinguir-se do mundo-de-amarras, porém, a individualidade e o processo de subjetivação estão em constante conflito com a ordem social que instaura modelos de identidade.
Cheritta, na sua condição de mulher gorda, tem em seu corpo o arquétipo de medo perpetuado por Cunningham. Ela é o exemplo de toda a vergonha que tange as escolhas erradas, apenas por ser gorda. Para deixar de ser gordo basta parar de comer (esta é a mentalidade trazida pelo filme), pois quem come muito está tomado pelo medo. Com efeito, Cheritta sente um mal-estar no seu Eu porque outras pessoas elegem-na receptáculo de máculas. A garota tem pouco espaço para produzir-se enquanto ser. São outros discursos que produzem significado no seu corpo-significante e se reproduzem nele. O olhar que a jovem possui sobre si mesma não é suficiente para convencer outros olhares que sua imagem pode coexistir no seio das várias relações sociais.
Os conflitos de Cheritta não estão apenas em sua imago e sim em todos os demais que a relembram como uma deficiência. Ela o será até se adequar à norma ou que a mentalidade dos grupos dos quais recebe os afetos percebam a relação de cumplicidade ao tentar moldar o corpo dela. A agressividade de Cheritta é a de um sujeito sem reconhecimento; como resposta à aniquilação, ela responde aos berros, literalmente, que existe vida no corpo errante: o corpo se debate a cada furo de faca que é o sangrento discurso regulador .
Ao tentarem exorcizar o erro da humanidade tentam expurgar algo que define os sujeitos enquanto seres. O erro não desaparece sem que o sujeito sinta uma parte de si indo embora. O mal-estar que ronda a juventude é desse gênero performativo: ao serem levados a atuar como pecadores questionam as crenças de sua espiritualidade pelos males que tentam fragmentar sua essência. Numa tentativa de reconciliar-se com seu Eu, agem com indisciplina, imoralismo, com inconsequência, imprudência e desrespeito.
Donnie reclama uma ontologia perdida para toda a juventude. Para identificar-se adulto seria preciso menos um esforço de constrangimento a uma aceitação das redes de diferença. Em outras palavras, paira um ar de deformação dos sujeitos para a condição de objetos, um conflito que nunca desaparece com o sujeito, mesmo que retorcido, recortado, atado, silenciado, subjugado, desqualificado, ridicularizado e mutilado. A subjetividade sobrevive enquanto existir sentido para ser significado no devir do sujeito.
Sempre haverá momentos de dor e escuridão e a existência depende deles para a formação do Eu. Ao invés de imaginar a morte, quem sabe somos capazes de depreendê-los a nosso favor enquanto seres inacabados, como parte de nossa história, assimilação do mundo em nós e construção de uma tragédia diferenciada que partilha sua temporalidade com outras tragédias num teatro em que os personagens são ora escolhidos e ora impostos, não por isso, somos impedidos de atuar de maneira imprevista um papel decadente, fazendo do choro solitário uma performance da diferença a qual apenas nós podemos executar.

Donnie no momento decisivo do dilema

Solidão

A ideia de destino atormenta as consciências que se consideram livres. No destino a liberdade é anulada por atos predeterminados. Donnie, ao conversar com Monnitoff, procura respostas para a existência da escolha, capaz de enfraquecer o destino. Neste diálogo, Donnie encontra em Deus a liberdade, nele reside o poder de decidir o caminho de todos; porém, é no caminho de Deus (God's channel) que o garoto acredita podermos fazer escolhas.
A necessidade da escolha provêm da solidão como destino de toda criatura viva, segundo Roberta Sparrow ao chochichar "Toda criatura viva na Terra morre sozinha" no ouvido de Donnie. Nossa existência possui sentido porque é compartilhada, existimos nas relações com o Outro. A morte é sacrificar as interações com o Outro. Morrer é perder esse sentido criado coletivamente.
O que pensa Donnie da morte?
Em sua sessão de terapia, Donnie afirma que Frank matará alguém e que os céus se abrirão. Em resposta, sua terapeuta diz: "Se o céu se abrisse de repente, não haveria lei. Não haveria regra. Haveria apenas você e suas memórias, as escolhas que fez, e as pessoas que tocou. Se esse mundo fosse acabar haveria apenas você e ele [Frank], e ninguém mais". Já no início do filme Donnie espera pelo fim do mundo, sem saber exatamente do que se trata.
De acordo com a terapeuta, a solidão espera Donnie na forma de um diálogo interno, ao invés de puramente nada o garoto continuaria a multiplicar-se em seu plano de imanência, num horizonte de eventos recriando-se a todo instante a partir de si e de Frank (sua razão interior, ou ainda, seu inconsciente tornado sombra). Ao menos podemos fazer esta interpretação.
Falamos tanto sobre mundo sem sequer conceituá-lo. Afinal, o mundo é objetivo ou subjetivo? O fim do mundo como inquieta Frank é subjetivo: é o mundo de Donnie que acabará. O mundo são as experiências do protagonista e todos os acontecimentos que constroem a subjetividade dele; é o ponto de vista de cada personagem do filme, singularizado em sua existência. Para os leitores deste artigo, o mundo é um conceito que nos permite pensar as experiências dos personagens de Donnie Darko na tentativa de pintar um quadro e chamá-lo totalidade de perspectivas ontológicas, a partir da interpretação deste autor que vos escreve (nada mais que outra perspectiva reclamando sua própria singularidade).
A existência, por ser compartilhada, exige atravessamentos de subjetividades (intersubjetividade). Criar pontes entre mundos para comunicarmos nossa solidão, na qual somos artistas de nós mesmos; emprestamos nosso olhar para produzir nossos cúmplices num agenciamento de experiências. A morte está reservada para toda existência que se justifica em si mesma, numa tentativa de imitar Deus, cuja existência consiste em criar sem ser criado.
Sendo a morte a porta para o fim porque Donnie escolhe ficar em sua cama sabendo o que acontecerá? Este é o ponto mais difícil de ser respondido. Compreende um dilema, por sua vez, consiste em escolhas. A análise não é um trabalho simples nesta altura.
Aplacar-se em sua cama não seria um ato de desistência, por excelência; cabe aqui servir-se da liberdade. A princípio, a morte de Donnie parece que diz respeito somente a ele, cabendo-lhe a simples escolha de viver ou morrer. Na verdade, sua temporalidade provoca efeitos no curso de outras vidas, de outros tempos individuais. Seu devir mantém e transforma o devir-outro.
A vida de Donnie apresenta-se num movimento circular de um devir-mesmo. Resignar-se com seu fim rompe o ciclo numa espiral que continuará sem ele, na qual Gretchen vive. Donnie lança mão do caos mais uma vez.
De todo modo, ele faz isso por ele ou pelos outros? Ou pela Gretchen? Ou aceita que sua diferença só faz sentido num lugar em que não há identidade para subjuga-lo? Ou, a visão mais cruel, entende que sua vida é um mal por causar dor e solidão?
Por um lado, entendo que ele tenta afastar-se do imprevisível incorporando-o para obter controle sobre a situação. Como o caos é imprevisível, sua única certeza é que nada acontecerá como antes. Por outro, o dilema existencial de Donnie põe em xeque sua resistência; deixa de enfrentar o mundo para conservá-lo. Deixa-se devorar por inteiro. O destino-acontecimento é a história reescrita pela liberdade de escolha.
O garoto-caos não pertence mais ao mundo de relações, vive como memória em algumas pessoas, é pura representação imagética. Sequer Gretchen, que aceita a diferença em Donnie, lembrar-se-á dele.
            Todo o sentido de ter-sido (numa inversão de vir-a-ser) perde seu propósito. Ao reescrever a história, Donnie opta por ser vazio, nada, sem valor, no momento em que se passa o filme. Sua escolha insinua que ele não se preocupa deixar de existir, como se fosse a coisa certa a ser feita. Do contrário, o que o esperava senão viver desafortunadamente suas experiências? Se estivéssemos na mesma situação de Donnie, abriríamos mão de nós mesmos apenas pela sensação de ter o destino em nossas mãos? Mais assombroso: seria a morte (deixar de existir) a única forma de vencer o destino?          

Donnie após decidir pelo fim do mundo

Últimas palavras

            Seguindo as representações discutidas até aqui, as identidades dos jovens estão excluídas do mundo adulto e com vistas de inserir-se nele, é um destino inevitável. O massacre das diferenças eleva a resistência entre o corpo-subjetividade e os discursos dominantes. A criatividade existe na solidão do corpo, sempre incapaz de comunicar tudo sobre si mesmo, sujeito à interpretações, distorções, recortes, eliminações e representações do que pretende comunicar e apreender do outro, por isso, uma diferença não é capaz de apreender outra, produz-se incansavelmente, prolifera-se na própria substância a partir dos sentidos, conhecimentos e conceitos encontrados nas interações e agenciamentos.
            O mal-estar da adolescência e da juventude (de forma geral) consiste na incompetência dos mais velhos de compreender a dimensão subjetiva do corpo, representando-as por uma identidade deformadora das diferenças, impondo uma forma incapaz de atender seu significado, provocando agressividade, revolta e afirmação de si por atos inconsequentes (segundo um juízo moral enunciado pelos adultos).
            Será que o destino dos jovens seguirá o arquétipo de Donnie? Serão os corpos des-subjetivados pelos dispositivos de poder a ponto de deixarem de existir para si mesmos? Por sorte a diferença não tem fim, o que propicia resistência. Todavia, Donnie, contemplado por sua diferença, escolhe não resistir, apagando-a.

Referências bibliográficas

Textos:
DELEUZE, Gilles. Logica do sentido.  São Paulo: Perspectiva, 2000.
DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição. Rio de Janeiro: Graal, 2006. FOUCAULT, Michel. Microfisica do poder.  Rio de Janeiro: Graal, 2007.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 2013.

Filme:

DONNIE DARKO. Direção: Richard Kelly. Produção: Adam Fields; Nancy Juvonen; Sean MacKittrik. Estados Unidos: Flower Films, 2001.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

O educador é um artista, compositor e instrumentista

1ª atualização em 21/06/2017.

Semana passada presenciei a cerimônia de colação de grau de minha turma de Pedagogia. Como faltavam algumas disciplinas para me formar eu não estava de beca, consegui um lugar na plateia e acompanhei o decorrer do evento. Além de todo o regogizo que esse momento significou para os recém titulados pedagogos e professores, seus mestres, amigos e familiares, chamou-me a atenção os discursos: os estudantes dividiam-nos entre os perrengues da vida universitária, a honra que significava estar diplomado e a importância de sua profissão para a sociedade; os professores parabenizaram os estudantes em seus discursos e exaltaram seus esforços, todavia, reservaram linhas para desmistificar os caminhos da profissão do educador e a área da educação.
            Interessou-me realizar um exercício de sintetizar todas essas falas num texto original e de articulá-las no formato de um discurso de colação de grau, procurando criar pontes entre a visão que educadores nutrem da educação para um público diverso que, muitas vezes, desconhece os propósitos e interesses da educação e sem conhecer a profissão dos educadores, em particular os professores.
            Eu começaria dizendo

Boa noite aos presentes: familiares, amores, amigos e cúmplices.

É com muita honra, como orador desta cerimônia, que venho provocar palavras de alegria e comemoração, bem como palavras de advertência e reflexão.


E prosseguiria com

É sabido que a vida assemelha-se à música, possui intensidade, discriminando sua leveza ou dureza; altura, que compara, divide e agrupa os sons entre si; duração, pois cada passo e cada ação têm começo e fim na partitura que tocamos; e o que me encanta mais, a vida tem timbre, a característica especial de cada som, a particularidade de cada ser que compõe esta magna orquestra de maestro oculto.
Ver música na vida é importante porque vemos arte, sentimos cada afeto como uma melodia. Não apenas sentimos as melodias como criamos algumas, e a beleza disso tudo é que acontece sermos músicos e musicistas no instante em que a arte do outro alcança nossos sentidos, daí sorrimos, choramos, gargalhamos, nos expomos, nos escondemos, nos preocupamos, trememos de felicidade, raiva ou tristeza, quiçá nos surpreendemos.
Embelezar tanto um discurso parece exagero, mas é porque não estamos acostumados com estas guloseimas. Simone de Beauvoir escreve em suas memórias que “Pela boca, o mundo entrava em mim mais intensamente do que pelos olhos e pelas mãos”, e acrescento que um mundo de música é inteiro comestível e pode devorado por todos. Consiste num exercício sinestésico bem reconfortante.
O que comemoramos aqui senão o ritual mais esperado pelas famílias? Não lhes parece estranho que dos nossos estimados 80 anos de vida a música de todos alcance tanto furor e estridência no ingresso dos jovens à graduação, e depois no final dela? São, estimo, 4 a 7 anos de composição, e nem passamos esses anos todos estudando e assistindo aulas, recebemos o título de universitários e aí se inicia um allegro; sem tardar torna-se prestíssimo com anima num intervalo de fusa. Ou seja, nosso maior momento de prazer é estar na universidade ou ver nossos filhos na universidade.
Não importa que as provas sejam difíceis, os trabalhos cansativos, os noturnos nos persigam durante as semanas de provas e os professores sejam péssimos regentes. Vale mais ser parabenizado pela conquista, receber o prestígio e a honra do reconhecimento para o sucesso. Sentimo-nos gigantes e respeitados, desbravadores de um mundo mágico.
Espere até pronunciar novos sons, desses que só a universidade ensina. Vão rir. Dirão que na partitura é bonita, mas a execução é impossível. É como falar que a universidade deve ser de todos e que o vestibular nega o direito à educação por ser meritocrático. Nossa intenção é que sejam notas mínimas num andamento lento, e sabe-se lá como convertem esta ideia numa sequência maluca de semifusas arpejadas com fantasia.
Aliás, existe um mito de que pedagogia é fantasia, logo é tudo imaginação, coisa da cabeça dos pedagogos. Porém, se nós pedagogos não compomos nada coerente, quem compõe? Bom, todos os outros que não são pedagogos. Eles são empresários, economistas, engenheiros, médicos, vendedores de bugigangas, motoristas de ônibus, garçons e, por incrível que pareça, nossos pais. Por que as pessoas são capazes de gerar filhos elas interpretam isto como sinônimo de saber educar, que é, possivelmente, a mentira mais bem contada desde a invenção da propriedade. Não sintam-se atacados, trago apenas provocações.
O que me preocupa não é que as pessoas estejam sendo moldadas por suas famílias, eu tenho uma família também, e eu não seria o que sou sem eles. A questão é que o mundo de hoje é um mundo sem arte, e quando aparece alguma cor ou som novo nele é desmentido com tamanha rapidez por um “o mundo não é assim!”, “onde foi que você aprendeu isso?”, “isso é besteira!” e por aí vai.
Pelas muitas coisas que já ouvi, existem duas verdades sobre o mundo, é um princípio essencial, ou ele é triste ou alegre, e a intenção de sua harmonia também, impossível coexistirem. A cada novo dia percebo mais pessoas desistindo de suas vidas, de si mesmas, como se elas fossem pouca coisa nesta orquestra só porque executam uma batida no tambor a cada oito compassos, e lá na primeira fila o violinista esteve sempre em destaque atraindo todos os olhares da plateia para sua performance.
Sentimo-nos injustiçados, porém, as coisas estão além do bem o do mal, para mencionar Nietzsche. A música pode ser alegre e triste, ao mesmo tempo, e ela nem sempre tem som, também tem pausas. A vida é dotada de um silêncio com o qual não estamos acostumados a lidar. Os melhores músicos e musicistas não são aqueles que possuem uma técnica invejável de arpejo e tocam tão rápido quanto possível, senão aqueles que relaxam bem suas notas e permitem que possamos saborear sua criação.
Seguindo orientalismos, simplifico o mundo numa alternância de tensão e relaxamento, e não poderia ser diferente na música. Da mesma forma é nossa responsabilidade enquanto educadores provocar a tensão e o relaxamento e mostrar como conviver com o soar de instrumentos diferentes: de um contrabaixo realçando as notas graves do violão até uma voz cuja performance diferencia-se daquela da flauta, ou ainda, como dois tenores podem executar linhas diferentes para uma mesma canção.
Percebam que nós não ensinamos a tocar os instrumentos, nossa ocupação é com uma filosofia de arranjos e conceitos musicais. Nós desmentimos que rap é coisa de pobre e funk, de puta; que rock é música de macho e “boiola” ouve pop. Quando nos recusamos a ouvir esses gêneros, nos recusamos a experimentar uma arte sem compreender porque ela é tal como ela é. Se a música é ruim porque alguém escutaria? Porque música, assim como educação, não é sobre bem o mal, certo ou errado, é de saborear, degustar e provar tudo o que é possível, de abocanhar todas as guloseimas.
Não é do meu interesse dizer para uma criança como ela deve comer seu doce, no final de tudo apenas perguntarei “O que você achou?”. Caso ela não consiga apreender a comida intervirei com “Quer ajuda? Posso mostrar como eu seguro?”.
Certo estava Sartre: “O inferno são os outros”. Os outros que fazem a cabeça de nossos filhos; os outros que conquistam a vaga na universidade que deveria ser minha; os outros que machucam, deixam-me triste e apontam meus erros; os outros me apequenam, me diminuem; agora entendo que são os outros que não permitem que eu seja quem eu quero ser e quem eu sonhei ser.
O outro quer me ensinar como eu devo tocar minha própria canção: decide a marcação do compasso, o intervalo de notas e todo o resto. Depois pede que eu reproduza. Nossas crianças são obrigadas a isso e nós professores também, mesmo depois de formados.
Aí percebemos que estamos todos falando sobre poder quando nos iludimos achando que somos grandes conhecedores de alguma coisa. Ao dizer que é melhor alterar o compasso para um 4/4 é devido a não acharmos o 3/4 da valsa, conveniente, e pena daqueles que se aventuram numa apresentação pública de um 3/2.
15/8 então é piada! Onde já se viu? Faça na sua casa, ninguém precisa presenciar isso!
Cremos que dançamos a mesma música e que todos deveriam ter uma performance parecida. No fundo, todos gostamos de jazz, que é nada mais que a melhor organização possível das diferenças. Nele são bem-vindos os improvisos, a mudança de tom, instrumentos desrespeitando a métrica da música e tudo o que há de mais diverso. E como é incrível ouvir um show de jazz!
Como já ouvi de um professora querida, numa das aulas de pedagogia, existe uma grande diferença entre um improviso de um bom instrumentista e de alguém que mal conhece seus rudimentos. Como pedagogos, nos dedicamos à teoria musical da educação e ao solfejo, nossa performance não é exata, todavia temos um bom ouvido para saber quando a melodia está desajustada e sabemos corrigi-la. Se não soubermos, temos material para preparar e estudar minuciosamente cada detalhe de uma nova partitura da aula. Caso os alunos não sigam o previsto, conduzimos a apresentação com uma virada de bateria, marcando a transição entre o fim de uma música e o começo de outra. Educação é arte, também é, surpreendam-se, ciência. Antes de dizer que nossa música soa estranho e que deveríamos mudá-la, pense que isto é tão complexo quanto dizer ao físico que a teoria do Big Bang carece de validade para suas proposições e por isso deveria ser abandonada ou reformulada.
Claro que nós não podemos afastá-los, vocês todos, da educação, seria tamanha violência que eu com certeza não receberia meu diploma se afirmasse isto sem ressalvas. Não venham e digam que o que fazemos não presta, venham para compor; queremos instrumentistas, podemos rever passagens na composição para encaixá-los e tornar a música mais bonita, o que não precisamos é de alguém que queira reescrever toda a partitura sem nunca ter tocado uma linha dela. Não queremos ensiná-los a tocar música, apenas temos um estilo e gostaríamos de preservá-lo, vemos que é a forma mais frutífera de musicalizar nossas vidas.
            Para muitos a música parou nos clássicos, como Beethoven, numa época em que a disciplina é importante, rigorosa e valorizada. A música, entanto, continuou transformando-se, vimos coisas maravilhosas surgindo no século XX e ainda hoje nos maravilhamos com sons do nosso tempo.
            Quando falo de pedagogia quero que saibam dessa boniteza toda. Não precisam ter medo de nossa música. Se vocês permitirem ouvir nossos sons perceberão que nossa motivação são sons de reflexão, possibilitando às pessoas levarem suas vidas de forma plena e realizada, a se encontrarem no silêncio das notas e a explorarem a si mesmas em qualquer tom, até sentirem-se satisfeitas com quem se tornaram e com as pessoas que se harmonizam com elas, principalmente as mais dissonantes.
Em algum lugar a dissonância conquista o estado de harmonia, passando a ser agradável. A música não é bonita por natureza, depende da experiência musical de seus ouvintes. Se tudo é música, por mais estranho que pareça, não vejo porque praticarmos tirania contra as dissonâncias, precisamos de tempo para nos emocionarmos com a obra toda, devemos escutá-la até o final, escutar sentindo profundamente todo o peso de cada nota. Toda dissonância é uma harmonia.
O mundo deve ser tão gostoso de se viver nele a ponte de tudo o que experimentamos nele ter um duplo sentido, nunca sabendo se comemos palavras ou falamos comidas, como diria Deleuze, ou ainda, se compomos vidas ou vivemos sonetos.
É difícil compreender a educação, ora ela fala das coisas como se fosse o paraíso agradável do céu ora tudo é um grande inferno destinado sempre às chamas da punição e à crueldade. A educação, como eu faço aqui, tem um pouco dos dois, ela acredita em humanidade e não perde de vista as práticas desumanizantes que atrasam seus objetivos. Citando Carl Jung: “Qualquer árvore que queira tocar os céus precisa ter raízes tão profundas a ponto de tocar os infernos”.
A educação não precisa ser um inferno, mas num momento em que ter poder e certeza constituem armas poderosas, devemos deixá-las de lado, nesse lugarzinho que lhes disseram que se chama céu, e ingressar num inferno que não é exatamente o que dizem por aí, ao contrário, fará de todos nós pessoas mais conscientes e completas em nossas relações, pois na educação temos cautela com a certeza, preferimos o erro como condutor, e o poder é distribuído, isto é, não temos ditadores ou algo que o valha, e por este mesmo motivo não somos nós educadores que mandamos na educação, nós temos ótimas diretrizes e um acervo excepcional de referências, este é o nosso diferencial. A educação fazemos todos e fazemos juntos.
            Nós, pedagogos, nos orgulhamos do que fazemos e nossos objetivos são reais. Tocamos melodias contra a injustiça, a pobreza, o preconceito, a desigualdade, a violência e a barbárie. Não vejo porque não manter-se separados, sem contar que temos um conhecimento valioso que podemos compartilhar com vocês para transformar nossas existências. Queremos fazer do mundo um lugar onde todos queiram viver, por isso nos formamos aqui hoje.

            E encerraria com

Obrigado pela paciência de ouvirem sobre a arte da educação. Boa noite para todos nós, artistas.


Kandisnky, Wassily.   Jaune-Rouge-Bleu, 1925.


            

sábado, 24 de dezembro de 2016

Instinto, reflexo e comportamento: bases biológicas da cultura

O seguinte texto está organizado em postulados e escólios, cuja base consiste nas considerações da psicologia comportamental (principalmente do beheaviorismo radical) acerca de uma diferenciação entre instinto, reflexo e comportamento, utilizando o exemplo de leões que devoram as crias que não pertencem à sua linhagem como analogia para casos de rejeição de bebês pelos pais quando descobrem que não são o pai biológico. Com efeito, busco demonstrar, sem esgotar o assunto, uma diferenciação entre instinto e cultura, além de mostrar como o instinto pode ser confundido com reflexo (uma confusão bem comum) e como um comportamento é tomado por esses dois.

Acerca do instinto em seres vivos não humanos:

1 – Instintos são comportamentos não modeláveis, comuns a uma espécie, não podem ser extintos e ocorre independentemente de estímulos externos.
1.1  – Ainda que os instintos preparem o organismo para um ambiente, ou seja, ele antecipa um possível cenário no qual o organismo pertencerá, eles são uma forma de garantir a perpetuação de uma espécie no ambiente em que seus progenitores viveram, não podendo antecipar qualquer cenário futuro em que o animal venha a viver.

2 – Os genes são informações compartimentadas que justificam formas, tamanhos, cores, materiais (células-tipo), organização celular, organização sistêmica e ações iniciais para garantir a sobrevivência de uma vida num ambiente.
2.1  – Os genes contém informações básicas que podem ser chamadas de instintos ou reflexos.
2.1.1 – O reflexo é uma resposta ao ambiente, existe uma série de informações armazenadas no código genético que podem ser ativadas em decorrência de estímulos do ambiente e está restrita ao código genético.

3 – A sobrevivência do animal no meio/ambiente depende de seus instintos e reflexos.

4 – O comportamento dos animais decorre de causas genéticas e sociais.
4.1 - Podem surgir novos comportamentos numa espécie, embora restritos ao seu material genético e à possibilidade de ativação desses genes.

5 – O animal aprende a viver no seu meio, regulando seu comportamento para os reforços gerados no ambiente (condicionamento operante) e não apenas reproduz seus instintos, herdados pelo código genético, o que significa que os comportamentos não são herdados geneticamente ou estão contidos no gene, porém, todo comportamento está em relação com um gene.
5.1 – Se um reforço positivo do meio aumenta a frequência da resposta esperada pelo animal, isto não é instinto, daí as leoas possuem um reflexo de proteção aos filhotes.
5.2 – Se as leoas não protegessem seus filhotes, outros leões os matariam, e se isto pode ser tomado como um instinto (embora esteja enviesado), também pode ser considerado um comportamento aprendido socialmente entre as leoas ou um reflexo, visto que a leoa só faz isso quando seu filhote está ameaçado.
5.2.1 – Se a leoa demonstra proteção ao filhote sem nunca ter visto este comportamento de outra leoa numa situação idêntica, a causa da proteção não é social, podendo ser instintiva ou um reflexo ao meio.
5.2.2 - Somente as leoas que protegiam seus filhotes tiveram os genes perdurados para a próxima geração de leões e leoas.

6 – A violência é uma situação social de confronto e implica num comportamento violento, embora sua base energética seja a agressividade, decorrente de causas genéticas, mais especificamente do funcionamento fisiológico do animal, mais conhecido por situações de luta e fuga do sistema nervoso simpático (ao menos em humanos), ou seja, o animal deve sentir-se ameaçado para demonstrar um comportamento violento, impulsionado pela agressividade instintiva desse animal; o comportamento violento mostra-se, portanto, um reflexo aos estímulos que ameaçam o animal.
6.1 – Afirmar que os leões devorarem os filhotes de outros leões é instintivo é afirmar que isto é uma necessidade, assim como o sexo, a alimentação e a respiração.
6.1.1    – Se comer os filhotes é um comportamento que pode ser extinto, então ele não é instintivo, podendo ser socialmente aprendido ou decorrente de seleção natural.
6.1.1.1 – A seleção natural não seleciona instintos, mas genes a ser repassados, portanto, informação genética, como exposto no postulado 2.
6.1.1.2 – A seleção natural depende do comportamento certo do animal no ambiente que permitirá a sobrevivência de um gene.
6.1.1.3 – Da mesma forma, podem ocorrer mutações no material genético dos animais, por causas variadas.
6.1.1.3.1 – As mutações genéticas podem extinguir uma espécie por ser desfavorável para a adaptação dela em seu meio ou facilitar a sobrevivência dessa espécie no meio, o que significa uma melhor adaptação, retornando o raciocínio para o escólio 6.1.1.2.

7 – Instinto é comumente e corretamente pensado como ações que os seres vivos desempenham desde o nascimento.
7.1 – As diferenças instintivas entre seres vivos decorrem de um material genético variado.
7.1.1 – O material genético variado decorre de condições ambientais, diferentes formas de adaptação das espécies ao seu ambiente e mutações preservadas por seleção natural.

1ª Conlusão:

1 – Não é instintivo devorar os filhotes, mas garantir a sobrevivência eliminando empecilhos que impeçam que o leão consiga se alimentar, sendo devorar os filhotes de uma prole estranha um comportamento possível e dificilmente um reflexo. Justificado pela seleção natural.

2 – Não é instintivo a leoa lutar contra as ameaças ao seu filhote, mas garantir a sobrevivência do filhote, sendo a luta e o confronto um comportamento possível justificado pela seleção natural. Por configurar um reflexo, visto que é um comportamento respondente, ou seja, acontece 100% das vezes em que o filhote encontra-se em perigo ou quando a leoa sente que existe uma ameaça; o ato de proteção pode configurar um comportamento operante, isto é, que opera sobre o ambiente de forma a prevenir as ameaças pelo combate físico.

Acerca do instinto em seres humanos:

Em seres humanos encontramos outras variáveis (análise psicanalítica da autoimagem e as ciências da cultura), permitindo-nos interpretar casos de rejeição de bebês por pais que descobrem uma traição na relação e desconfiam que o filho não seja de sua linhagem como:

1 – A traição e a descoberta da falsa paternidade são eventos diferentes, embora coextensivos.
1.1 – No caso da traição, o importante é a reciprocidade e a confiança que desaparece na relação do casal.
1.1.2 – A traição fragiliza a relação do casal, mas não necessariamente a relação pai-bebê.
1.2 – No caso da descoberta da falsa paternidade, o importante é a negação de algo que parecia verdade. O bebê é a mentira viva na relação do casal, mas torna-se objeto de projeção das angústias do homem que o criou imaginando ser seu pai ("pai").
1.2.1 – O bebê é mais do que genes herdados do pai para serem perpetuados, é um sentido de existência e de pertencimento para o "pai": quebra de expectativa e fragmentação da identidade.
1.2.1.1 – Este caso pode ser revisto como objeto de interesse da filosofia pelo uso da razão e dos atos conscientes, não sendo nem biológico nem psicanalítico.
1.2.2 – O instinto do "pai" é a preservação de si, refletido na preservação da autoimagem de “ser pai”, sentido existencial dado quando soube da gravidez da esposa.
1.2.2.1 – O então “pai” pode ver-se como pai a partir do momento em que recompõe sua autoimagem de pai do bebê, ignorando a genética.

2 – O darwinismo, quando muito mal interpretado, sugere que a evolução acontece sob um princípio de exclusão, justificada pela famigerada competição natural entre os seres vivos.
2.1 – A evolução dos seres vivos tende para a homeostase, por isso, para organismos cada vez mais complexos, inter-relacionados, retroativos e socialmente funcionais. Se o ser humano representa o auge da evolução seu organismo pode ser tomado como exemplo dos processos históricos de evolução.
2.2 – A psicanálise, mesmo superando a visão freudiana da psique, preserva o conceito de ego e a descentração do ego para a sociedade – sacrifício dos prazeres individuais devido a princípios morais.
2.2.1 – A eficácia dos sistemas culturais humanos encontra-se baseada num sistema de valores que submete o indivíduo à vida coletiva.
2.2.2 – O surgimento de um sistema simbólico comum à vida social permite que os indivíduos se comuniquem e criem linguagem, recurso que só é desenvolvido na presença do outro.
2.2.2.1 – A linguagem existe para comunicar algo, ela é criada a partir das necessidades dos indivíduos e se complexifica a medida que as necessidades do indivíduos se complexificam.

3 – A consciência permite uma adaptação melhor do indivíduo ao ambiente por estar dotada de reflexão, possibilidade de mudança de comportamentos.
3.1 – A complexificação da consciência permite que o indivíduo viva um momento e não um instante.
3.2 – A complexificação da consciência permite que o indivíduo perceba-se como um objeto entre objetos.
3.3 – Acompanhada da possibilidade de memorização, a consciência permite resgatar diferentes disposições dos objetos no espaço num instante específico e contribui para a diferenciação de instantes.
3.3.1 – Os instantes memorizados permitem a formação de uma narrativa pessoal: permitem que o indivíduo conte sua história.
3.4 – A consciência permite o desenvolvimento da autorregulação na medida em que as memórias resgatadas oferecem uma percepção contínua do indivíduo no espaço.
3.5 – As emoções são a complexificação das percepções sensoriais, com um funcionamento mais profundo, alcançando a psique.
3.5.1 – As emoções ajustadas à consciência podem ser consideradas processos evolutivos decorrentes da superação do ego: originam os conflitos internos, solucionados na maioria das vezes com encontros externos (no ambiente).


2ª Conclusão:

1 - As atitudes violentas são comportamentos-reflexos com bases genéticas no temperamento agressivo, não instintos. O instinto é a autopreservação.
1.1 – Ainda que existam genes para justificar a agressividade, e por isso a violência, a carência de estímulos ambientais não ativa esses genes e a violência não é uma necessidade biológica senão um comportamento genético que sofreu seleção natural para permitir uma adaptação, mas que pode ser suprimido pelo aparecimento de um comportamento mais vantajoso para a sobrevivência dessa espécie sem alterar sua identidade genética num curto período de tempo.
1.1.2 – A mudança de comportamento não altera o material genético, como gostaria o lamarckismo, embora mudanças no material genético signifiquem mudanças diretas nas possibilidades de comportamento, como consta no darwinismo.

2 – As emoções também estão sujeitas a processos evolutivos pela fisiologia do corpo e sugerem, por darwinismo, um funcionamento emocional do cérebro que propicia a adaptação da espécie humana.
2.1 – As emoções costumam ser justificadas pelo funcionamento neurofisiológico do corpo, tendo um sentido material muito bem construído e estudado pelas ciências biológicas ou ciências da vida, por outro lado, as ciências humanas aventuram-se a procurar sentidos imateriais nas relações humanas, como é a ideia, a moral, a linguagem, a cultura, o pensamento, a transcendência.

3     – O conflito interno gerado no "pai" pela descoberta da traição e de que seu filho não é necessariamente seu, gera uma emoção desagradável que pode ser ajustada por um ato de consciência para viver em convivência.
3.1 – A convivência é saudável na medida em que ela permite relacionar-se.  O "pai" pode separar-se da esposa e do bebê, este será o recurso homeostásico que permitirá ao "pai" dirigir seus desejos e sonhos para outras relações (outras mulheres/outros bebês). 
3.1.1 – Pensar a homeostase das relações como a conciliação entre marido e esposa e marido e bebê, é um valor moral sobre as relações, que também significa enfrentar os perigos que fragmentam a autoimagem.
3.1.1.1 A reconciliação pode ser uma solução consciente e/ou emocional, mas não necessariamente, visto que a identidade de pai pode ser reconstruída em outras relações.

4 – Dificilmente a agressividade deixará de fazer parte dos reflexos emocionais que permitem a autopreservação do ser (instintivo), mas a consciência, nascida da socialização, decorrente de bases evolutivas da cognição e da abstração humanas, tendem a punir comportamentos que impedem a convivência moral dos indivíduos sociais.
4.1 – Diferente do reforço negativo, que aumenta a frequência da resposta indesejada ao observador devido a estímulos condicionantes, toda punição diminui a frequência de uma resposta indesejada por estímulos aversivos. A punição, desta forma, procura extinguir uma resposta inadequada às expectativas dos condicionantes.
4.2 – A divisão que se faz no comportamentalismo entre reforço positivo e reforço negativo leva em consideração uma resposta comportamental escolhida arbitrariamente para ser o objetivo do condicionamento.
4.2.1 – Toda punição, não é nada mais que um arbitrário que regula o comportamento de um indivíduo ou grupo de indivíduos, portanto, não é natural ou instintivo, é sempre um comportamento violento.
4.3 – Cada cultura encontra sua própria forma de homeostasiar-se, de aplicar reforços positivos ou punições para garantir a sobrevivência de grupos que partilham de um circuito simbólico parecido. Assim, a cultura tende a preservar sua forma adequando o comportamento de seus indivíduos à própria cultura, evitando heresias, sendo as punições uma forma de extinguir comportamentos que impeçam a convivência entre os seres.
4.3.1 – As culturas encontram divergências entre seus valores, costumes e tradições, diante de culturas estranhas.
4.3.1.1 – Qualquer fundamentalismo é uma forma de extinguir o que é estranho, tendendo a perpetuar sempre o Mesmo, seus próprios valores, o que fere um princípio de variabilidade essencial nas teorias da evolução, além de não ser homeostático.
4.4 – As culturas que incentivam comportamentos violentos, a liberação dos impulsos agressivos através da punição, provavelmente sofrerão negativamente as consequências da seleção natural, visto que a evolução prioriza conjunções.

5     – Temas como ética, política, filosofia e educação permitem profundas reflexões da vida sobre a vida, das continuidades possíveis e desejáveis. Permitem rever comportamentos, recompensas e punições no cotidiano, na cultura e na história e ajustá-las para realizar seu instinto e todos os outros instintos.
5.1 – A negociação, o diálogo, a conversa e a fala são meios que diferenciam as possibilidades comportamentais de leões e esposos que achavam que eram pais, permitindo realizar as necessidades do instinto ajustando seu comportamento, tendendo cada vez mais à autorregulação e menos à punição externa, sendo a surpresa e raiva reflexos para lidar com um ambiente ameaçador à autoimagem, mas que podem ser evitados sob condicionamentos.
5.1.1 – É difícil imaginar que uma autorregulação permita que o indivíduo conheça 100% de si mesmo e de suas possibilidades comportamentais, o ego não permite que o indivíduo realize autopunições constantes que evitariam a realização do seu prazer, sendo considerado patológico ou mesmo uma mutação desfavorável para sua sobrevivência. O que justifica a existência de instituições externas ao indivíduo para regular a vida social.


6 – Nem o leão nem o ser humano possuem instintos agressivos, a seleção natural utiliza a agressividade como um reflexo para a sobrevivência em casos de ameaça apresentadas pelo ambiente, podendo a agressividade ser externalizada nos mais variados comportamentos e combinações entre eles, possíveis pela existência dessa informação no material genético ou por uma informação aprendida, o que fornece meios para pensar a vida como uma homeostase entre uma informação genética (interior) e uma informação social (exterior).